Isolamento russo devido a morte de espião

Há quase um mês, as tensões entre o bloco da União Europeia/Estados Unidos e o bloco russo deram mais um passo a momentos parecidos com notícias históricas da Guerra Fria. O ex-espião russo Sergei Skripal, que fez trabalhos para o MI6 (agência de inteligência britânica) e sua filha, foram internados com situação grave por envenenamento em um parque na cidade de Salisbury, no Reino Unido. Como resultado, há acusações em ambos os lados sobre quem foi o culpado, prejudicando relações diplomáticas no mundo inteiro, e deteriorando ainda mais a relação entre Reino Unido e Rússia que já estava desgastada desde a morte do ex-agente da KGB Alexander Litvinenko em Londres, em 2006, também por envenenamento.

Ao final do mês de março, Theresa May, primeira ministra britânica, respondendo à pergunta de qual substância foi usada para envenenar Skripal respondeu: “Novichok”, um agente nervoso concebido na União Soviética nos anos de 1970-1980. Atualmente, ele apresenta diversas variáveis que estão entre os agentes mais mortíferos de todos os tempos, sendo pouco conhecido no Oeste, dificultando ainda mais a busca de um antídoto para a cura. A partir dessas alegações, restou poucas dúvidas para o governo britânico declarar culpado o governo russo por tal ato.

Com a certeza da ação do governo russo no crime, os EUA, Reino Unido e alguns outros países aliados determinaram como sanção a expulsão de vários diplomatas russos de seus países. Entre Reino Unido e Rússia foram mandados aos seus países natais mais de 300 diplomatas, sendo a maior tensão diplomática entre esses países desde a Guerra Fria. May considera uma   grande quebra de soberania nacional, e que esses atos não devem ser tolerados. A Casa Branca comunicou após a expulsão dos diplomatas russos: “Com esses passos, esperamos deixar claro para a Rússia que ações têm consequências”. O presidente francês Emmanuel Macron considerou uma “quebra de soberania europeia”, e os demais líderes da União Europeia também apoiaram a decisão de May, aprofundando ainda mais as sanções do Oeste com a Rússia, país que sofre com sanções econômicas desde a anexação da Criméia, em 2013.

Do outro lado, houve também alegações e respostas do Kremlin. O chefe da diplomacia russa, Serguei Lavrov, pediu na semana passada em discurso a Organização para a Proibição das Armas Químicas (OPAQ) uma “investigação substancial e responsável” sobre o envenenamento do ex-espião russo Serguei Skripal, com a advertência de que o Reino Unido não poderá ignorar as perguntas legítimas apresentadas pelo governo russo. Porém, o esforço de Lavrov não foi correspondido. Os 41 membros do conselho executivo da OPAQ, reunidos em portas fechadas, neste 4 de abril, em Haia, negaram a proposta russa de uma investigação conjunta entre Rússia e Grã-Bretanha sobre o caso. Lavrov, no entanto, rejeita qualquer possibilidade de o agente “Novichok” ter sido fabricado pela Rússia. O presidente russo, Vladimir Putin, declarou, em sua passagem pela Turquia, que o país está disposto a cooperar, mostrando-se contra as acusações e a favor de uma investigação conjunta.

Enquanto a negociação entre os países ainda é pouco produtiva, Skripal e sua filha estão apresentando melhoras em seu estado de saúde e respondem bem ao tratamento que está sendo feito. Sua filha Yulia, de 33 anos, que havia chegado ao Reino Unido procedente da Rússia um dia antes do envenenamento, apresenta estado estável, e já recuperou a fala. O relato de ambos, Serguei e Yulia, é uma parte fundamental para chegar a conclusão do caso e amenizar o clima de tensão entre os países.

Texto de Arthur Sant`Anna, graduando em Direito pela Fundação Getúlio Vargas e trainee da Consultoria Júnior de Economia da EESP – FGV.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *