Kim Jong-un: “Confie, mas verifique”

Em 1972, 19 anos após o fim da guerra da Coréia, as duas Coreias começaram um diálogo político a fim de negociar uma reunificação pacífica. Entretanto, a Coréia do Norte acabou por abandonar as negociações. Em 1985, o mesmo fato se repetiu. Uma reunião, de fato, entre os líderes dos países aconteceu em 2000, rendendo o prêmio Nobel da paz daquele ano para Dae-Jung, ex-presidente sul-coreano. Mas, o que ocorreu na última sexta-feira, 27, é histórico. Pela primeira vez, um ditador norte-coreano ultrapassa a fronteira a pé e pisa na Coreia do Sul.

As nações, mesmo tendo assinado um armistício em 1953, no local onde retomaram as negociações na última sexta-feira, tecnicamente ainda estão em guerra. O líder norte-coreano, Kim Jong-un, disse ao presidente sul-coreano que o seu país estaria disposto a abandonar as armas nucleares se os Estados Unidos e a China, ambos participantes da Guerra da Coréia, também o fizessem. Isso mostra, por um lado, uma jogada diplomática de Kim. Por outro, uma atitude prudente frente às pressões oriundas das sanções econômicas dos EUA ao país. O presidente americano, Donald Trump, afirmou: “o encontro é muito bom para o mundo”, mas disse que não será enganado por falsas promessas de desnuclearização proferidas pelo líder norte-coreano.

O ceticismo de Trump não é injustificável, uma vez que, historicamente, os acordos feitos por esses países foram infrutíferos, tendo, a Coreia Do Norte, mantido armas nucleares, a despeito de pactuar com as prerrogativas que os acordos estipulavam. Kim mostrou um tom amigável, que pode conferir certa pressão antes do encontro de cúpula com Donald Trump, para aliviar as sanções contra a Coreia do Norte antes de qualquer concessão significativa de fim de atividades nucleares no país.

Em meados dos anos 80, quando o ex-presidente Ronald Reagan negociava o desarmamento nuclear com a União Soviética, gostava de citar um velho provérbio russo: “Confie, mas verifique”. O entusiasmo perante a este acontecimento histórico é completamente compreensível frente o histórico de relações entre os países da península. Mas tal qual as esperanças frustradas do passado, a pressão oriunda das fortes sanções econômicas imposta à Coreia do Norte pode fazer com que Kim tente usar a tática de oferecer uma coisa e tentar entregar outra.

Texto de Gabriel Locci, graduando em Direito pela Fundação Getúlio Vargas e consultor da Consultoria Júnior de Economia da EESP – FGV

One Comment on “Kim Jong-un: “Confie, mas verifique””

  1. Excelente. Comentário técnico e de fácil compreensão. Para o maior dos catedráticos e o simples dos leitores!

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