A turbulência turca

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A Turquia é um país onde os direitos humanos foram minimizados. Esse fato foi denunciado pela ONU, baseado na grande quantidade de prorrogações de estados de emergência no país após o golpe de Estado fracassado de julho de 2016 e na forma agressiva e abusiva como o governo agia com sua população. A partir disso, os países se afastaram da Turquia, pois não possuíam um bom conceito a seu respeito; mas, até esse ponto, não houve uma ação dos turcos que afetasse diretamente os EUA. Então, turcos prenderam o pastor americano Andrew Brunson, acusado de possuir laços com o movimento fundado pelo clérigo islâmico Fethullah Gulen e de ter orquestrado o fracassado golpe militar de 2016. A partir disso, uma crise diplomática entre os dois países foi desencadeada.

Os EUA solicitaram a soltura do americano, porém o Estado turco negou, e por isso o líder estadunidense Donald Trump autorizou o aumento das tarifas sobre o alumínio (para 20%) e o aço (para 50%) importados da Turquia, causando uma desvalorização histórica da moeda nacional turca. Em resposta às sanções norte-americanas, a Turquia elevou drasticamente as taxas aduaneiras sobre várias importações dos EUA, por exemplo, as taxas de importação sobre o tabaco e o álcool, que aumentaram, respectivamente, 60% e 140%.

Além disso, os EUA terem elevado sua taxa de juros desvalorizou ainda mais a moeda turca, para um patamar de 40% em relação ao dólar, pois houve uma fuga de capital dos países emergentes em direção à potência americana. Com tal desvalorização, o Banco Central (BC) turco elevou os juros para sustentar a lira, a moeda turca, e conter a inflação, que atingiu o nível mais alto em quase 15 anos em agosto, e ainda ressaltou que continuará a usar “todos os instrumentos disponíveis” para cumprir seu objetivo de buscar a estabilidade de preços e para que a perspectiva para a inflação apresente uma significativa melhora.

Diante desse quadro, o que mais preocupa os investidores na economia turca é o quanto o presidente Erdogan pode aguentar até que ele decida intervir na atividade do BC. A autoridade turca afirma ser contra os aumentos de juros proporcionados pelo Banco Central, que colocou a taxa de juros em 24%, porém diz estar paciente pois reconhece a independência do BC. O presidente ainda afirma a uma confederação de operadores: “Se você diz que a inflação é a causa e que os juros são o resultado, você não sabe de nada”. A moeda turca, que estava praticamente estável no início do pregão do dia da declaração, passou a cair mais de 2,5 por cento após a declaração de Erdogan. Por isso, há um pessimismo e uma incerteza dos investidores com relação à Turquia, há receio de as políticas monetárias serem influenciadas pelas opiniões do presidente Erdogan.

Assim, as altas de juros e de inflação na Turquia são ocasionadas pelas tensões entre Washington (EUA) e Ancara (Turquia), existentes tanto pela má imagem que a Turquia possui devido às violações dos direitos humanos, quanto pela prisão do pastor americano e pela recusa de sua soltura. Além disso, a elevação das taxas de juros americanas foi um dos principais fatores para a disparada da inflação turca, pois retirou investimentos do país. Ademais, há incertezas por parte dos investidores da economia turca devido ao posicionamento do presidente Erdogan contra os aumentos das taxas de juros, o que gera ainda mais conturbações no mercado desse país.

 

Texto de Juliana Peronti, graduanda em Administração de empresas pela Fundação Getúlio Vargas e consultora da Consultoria Júnior de Economia da EESP – FGV.

 

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