O Brexit e as Taxas de Juros

O Brexit gera um cenário econômico altamente especulativo na Inglaterra, colocando as autoridades financeiras atentas ao decorrer das negociações. Após um referendo em junho de 2016, programando a saída da Inglaterra da União Europeia em março de 2019, as perspectivas econômicas inglesas são dominadas pelas expectativas da realização da saída. De forma breve, o Brexit tem quatro cenários possíveis: (i) No Deal; (ii) Hard Brexit; (iii) Soft Brexit; e (iv) Chequers Deal.

O pior dos casos, para a Inglaterra e a União Europeia, é o No Deal. O No Deal, que significa que não há acordo em vigência entre as partes,  é a saída que gera maiores incertezas quanto ao futuro. Chamada de turbulenta, seriam geradas rupturas no fluxo de pessoas entre a União Europeia e o país, além de rupturas na cadeia de suprimentos, possível taxação e burocratização do comércio internacional (sujeito ao padrão internacional de comércio vigente) e pressão inflacionária por uma moeda mais fraca.

O Hard Brexit, parecido com o No Deal, mas com menos incertezas, é um acordo que gera grande independência para o governo inglês, propondo controle do fluxo migratório entre europeus, taxação sobre o comércio. O Hard Brexit permitiria novos acordos de comércio com outros parceiros como EUA China e Índia

O Soft Brexit, por sua vez, muda ao mínimo a relação institucional entre Inglaterra e a União Europeia. Neste cenário, haveria a tentativa de manter o mínimo de disrupção na competição com o comércio na União Europeia, com o mínimo ou nenhuma taxação em alguns setores. Além disso, o Soft Brexit dificultaria a formação de novos laços comercias com os possíveis parceiros citados anteriormente. Entretanto, esse cenário, com efeito oposto ao Hard Brexit, não protege competitivamente as industrias que produzem para o consumo nacional, e não satisfaz outras demandas dos que votaram a favor no referendo, que são, por sua vez, demandas questionados por diversas visões econômicas.

O Chequers Deal, assim como outras propostas, visa a intermediar as demandas entre um soft Brexit e um hard Brexit, tentando evitar ao máximo o risco de não haver um consenso até a data da saída, isto é, evitando o No Deal.

Definido o Brexit e suas complexidades, não é inesperado que haja diversas expectativas quanto ao comportamento da taxa de juros ingleses. Dentre os diversos possíveis Brexits, há diversas reações da taxa de juros, e diversas opiniões dentre especialistas. O consenso são as incertezas geradas.

Inicialmente, em 2 de novembro de 2017, o Banco Central da Inglaterra subiu sua taxa de juros pela primeira vez em dez anos, depois do mínimo histórico de 0,25% para 0,5%. Justificando a decisão, o presidente da instituição, Mark Carney alega que, com pressão inflacionária e um mais rápido crescimento da economia, era “improvável” que a inflação retornasse para o equilíbrio sem um aumento da taxa de juros. “A decisão de deixar a União Europeia já está a ter um impacto visível. O excesso de inflação durante toda a previsão reflete predominantemente os efeitos sobre os preços de importação e a queda na libra relacionada com o referendo. A incerteza está associada ao Brexit e a nossa influência na atividade doméstica diminuiu, mesmo quando o crescimento global aumentou significativamente”, acrescentou. Posteriormente, em 2 de agosto de 2018, a taxa de juros é definida para 0,75% e, em 13 de setembro de 2018 o Banco Central se pronunciou, afirmando que faria a manutenção de tal taxa, mas estava disposto a subi-la caso a situação do Brexit permanecesse indefinida.

O próprio Banco Central disse que se o Brexit não for suave, as taxas de juros podem tanto aumentar, quanto cair. No cenário de No Deal, Mark Carney disse que prevê, com os modelos internos ao banco, as taxas de juros aumentando fortemente. A fala de Carney, no entanto, ia contra as expectativas do mercado, que visualizavam uma queda na taxa de juros para fomentar o produto, pois se o Brexit não for suave, deve gerar efeitos recessivos danosos à economia. A curva de juros do mercado hoje, no entanto, se encontra mais de acordo com as falas de Mark Carney, uma vez que estão positivamente inclinadas.

Em suma, as reações do juros são instáveis frente às incertezas do Brexit. Fato é que quanto mais tempo passa sem um acordo pronto, maiores as chances de um No Deal Brexit, que torna mais volátil o mercado e pior o cenário para a Inglaterra e para a União Europeia. Até então, o Banco Central vem aumentando levemente a taxa de juros para tentar conter a inflação, mas esta de olhos abertos para responder a novos movimentos do mercado durante o desenrolar das negociações.

 

Texto de Victor Novaes, graduando em Economia pela Fundação Getúlio Vargas.

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