Tensões comerciais e estabilidade financeira

A projeção do Fundo Monetário Internacional (FMI) para 2018 quanto ao crescimento da economia global reduziu-se de 3,9%, estimativa feita em julho, para 3,7% no mês de outubro. Apesar da organização internacional acreditar que a economia mundial esteja relativamente mais estruturada e preparada para lidar com eventuais crises, alguns fatores, como a continuidade do conflito comercial entre Estados Unidos e China e as pressões que os países emergentes estão sofrendo recentemente, colocam a estabilidade financeira global em alerta.

A atual tensão comercial entre duas das maiores potências mundiais, China e Estados Unidos, tornou-se um conflito concreto no mês de julho quando as tarifas sobre importação deixaram de ser apenas ameaças americanas e se converteram em uma taxa de 25% sobre uma variedade de importações chinesas. Essa medida desencadeou uma verdadeira tensão mundial ao passo que a China responde com a imposição de tarifas de mesma magnitude.

A princípio, americanos alegam que o governo chinês estaria roubando tecnologia americana e os chineses, por sua vez, alegam que os Estados Unidos estão adotando medidas protecionistas que prejudicam o mercado internacional. No entanto, é importante ressaltar que essas alegações seriam justificativa apenas para as primeiras taxas impostas, de forma que as demais taxas teriam como principal característica a retaliação entre os dois países. Desse modo, ambos os lados estão dispostos a continuar aumentando as tarifas sobre importação e em agosto, as tarifas somadas já representavam 100 bilhões de dólares em produtos.

Mercados de países emergentes são mais sensíveis a instabilidades entre grandes potências. Recentemente, a tensão comercial em conjunto com o aumento da taxa de juros dos Estados Unidos pressiona economias emergentes e, como consequência, suas moedas sofrem desvalorizações. O investidor, avesso ao risco, migra rapidamente dessas economias para a de países economicamente mais fortes e essa diferença entre economias, que fica cada vez maior, é um dos principais pontos que podem abalar a estabilidade financeira mundial. No Relatório sobre Estabilidade Financeira Global publicado em outubro de 2018 pelo FMI, é colocado que quanto maior a distância entre esses dois segmentos da economia, emergente e avançada, maior a retração das condições financeiras nos países emergentes, e consequentemente maior a instabilidade financeira mundial.

Levando o que foi dito anteriormente em consideração, pode-se concluir que a situação financeira global, mesmo que considerada estável, encontra-se num contexto de falta de perspectiva quanto ao fim das tensões entre China e Estados Unidos, conflito que reflete diretamente não só nas políticas econômicas de todos os países, mas também na atitude de todos investidores, que se encontram em cenários com cada vez mais riscos.

Texto de Ana Luísa Mendonça, graduanda em Economia pela Fundação Getúlio Vargas 

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